
Campina Grande, no interior da Paraíba, passou as últimas semanas sob perplexidade e tensão. A cidade conhecida pelo “maior São João do mundo” virou o epicentro da mais recente suspeita de golpe com criptomoedas no Brasil.
Milhares de campinenses, motivados pelo boca a boca entre parentes, amigos e conhecidos, investiram suas economias pessoais sob a promessa de um ganho financeiro ao redor de 8% ao mês. É uma taxa considerada irreal pelos padrões usuais do mercado.
O negócio foi oferecido por uma empresa local, a Braiscompany, e tinha um modelo pouco convencional.
Os participantes convertiam seu dinheiro em ativos virtuais, que eram “alugados” para a companhia e ficavam sob gestão dela pelo período de um ano. Os rendimentos dos clientes representavam o pagamento pela “locação” dessas criptomoedas.
Mas o calendário de remuneração dos dividendos deixou de ser cumprido desde o final do ano passado, e a hipótese de calote paira no ar.
Antônio Neto Ais, o fundador da companhia, disse em uma live que gerenciava R$ 600 milhões de 10 mil pessoas.
A Braiscompany não respondeu aos questionamentos feitos pela BBC News Brasil a respeito da possibilidade de não honrar os compromissos com seus clientes e sobre outros pontos do caso.
‘É o PIB de Campina Grande nisso aí’
Os rumores sobre o alto retorno financeiro pago pela Braiscompany, fundada em 2018, se espalharam além das divisas de Campina Grande. Atraiu pessoas da capital João Pessoa (distante a apenas 125 km) e de outros locais, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Mas é a cidade paraibana de 400 mil habitantes que representa o principal da clientela da “Brais”.
“Rapaz, você não está entendendo… é o PIB [Produto Interno Bruto] de Campina Grande que está nisso aí. Comerciantes, servidores públicos, aposentados…”, diz uma pessoa que investiu R$ 50 mil na Braiscompany e não quer se identificar.
Eu conheço gente que vendeu apartamento e colocou a grana lá. Comerciante que colocou as finanças da empresa.”
Outro investidor, que saiu de Campina Grande há 8 anos para viver em Portugal, afirma ter transferido R$ 230 mil para o negócio.
Segundo ele, esse valor representa todas as suas economias acumuladas nesse tempo trabalhando como agente de viagens na Europa: “Tudo o que eu construí na minha vida”.
Ele acha que não verá mais esse dinheiro.
“Estou levando isso como um luto. A perda de um parente. Sabe quando morre uma mãe, um pai, um irmão? Mas eu tenho que seguir minha vida, tenho que continuar. Fui iludido e fui enganado. E muito bem enganado.”
Também é mais um a usar a expressão “PIB de Campina Grande” para ilustrar o envolvimento da população local de maior poder aquisitivo com a Braiscompany. Ele observa, no entanto, que o esquema com criptomoedas conseguiu atrair até pessoas da região com menos recursos.
“Os arredores de Campina Grande têm muita zona de interior, de sítio, de seca, de gente que enfrenta escassez de coisa básica. Gente que vive de plantação, de gado, em lugares como Queimadas, e colocou R$ 3.000, R$ 5.000 nesse negócio. São várias famílias nessa.”
Para o advogado especializado em ativos digitais e blockchain Bernardo Regueira Campos, a Braiscompany conseguiu criar “um medo de ficar de fora” de uma grande oportunidade de ganhar dinheiro.
“Ela fazia as pessoas se sentirem um burro excluído de você não investisse. Porque seu amigo que entrou nessa comprou um [relógio] Rolex, um carro para a namorada.”
“Eu conheço gente que vendeu apartamento e colocou a grana lá. Comerciante que colocou as finanças da empresa.”
Outro investidor, que saiu de Campina Grande há 8 anos para viver em Portugal, afirma ter transferido R$ 230 mil para o negócio.
Segundo ele, esse valor representa todas as suas economias acumuladas nesse tempo trabalhando como agente de viagens na Europa: “Tudo o que eu construí na minha vida”.
Ele acha que não verá mais esse dinheiro.
“Estou levando isso como um luto. A perda de um parente. Sabe quando morre uma mãe, um pai, um irmão? Mas eu tenho que seguir minha vida, tenho que continuar. Fui iludido e fui enganado. E muito bem enganado.”
Também é mais um a usar a expressão “PIB de Campina Grande” para ilustrar o envolvimento da população local de maior poder aquisitivo com a Braiscompany. Ele observa, no entanto, que o esquema com criptomoedas conseguiu atrair até pessoas da região com menos recursos.
“Os arredores de Campina Grande têm muita zona de interior, de sítio, de seca, de gente que enfrenta escassez de coisa básica. Gente que vive de plantação, de gado, em lugares como Queimadas, e colocou R$ 3.000, R$ 5.000 nesse negócio. São várias famílias nessa.”
Para o advogado especializado em ativos digitais e blockchain Bernardo Regueira Campos, a Braiscompany conseguiu criar “um medo de ficar de fora” de uma grande oportunidade de ganhar dinheiro.
“Ela fazia as pessoas se sentirem um burro excluído de você não investisse. Porque seu amigo que entrou nessa comprou um [relógio] Rolex, um carro para a namorada.”
O que pode acontecer com a Braiscompany e Ais Neto
O Ministério Público da Paraíba está investigando o caso após denúncias feitas por investidores. Um processo conduzido pelo o promotor de Justiça de Campina Grande e diretor-regional do MP-Procon, Sócrates da Costa Agra, foi instaurado no dia 26 de janeiro.
Nota divulgada diz que as apurações “avançaram muito nos últimos dias, com informações que elucidam a atividade da empresa Braiscompany e que reforçam a necessidade de judicialização”.
“Esta semana, tivemos acesso a informações importantes e imprimimos um ritmo mais acelerado à apuração. Acreditamos que até a próxima semana, acionaremos a Justiça, na esfera cível. Até agora, tudo corrobora para a necessidade da deflagração de uma ação civil pública, a fim de resguardar os direitos dos consumidores e reparar os danos causados à coletividade”, afirma Agra.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que fiscaliza o mercado de valores, disse apenas que “acompanha e analisa informações e movimentações no âmbito do mercado de valores mobiliários brasileiro, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário. A autarquia não comenta casos específicos”.
No dia 12 de janeiro a CVM recebeu uma denúncia formal contra a Braiscompany. Um processo já havia sido aberto em 2020, depois transferido para o MP.
Segundo o advogado especialista em ativos digitais Pedro Torres, o principal serviço oferecido pela Braiscompany, o “aluguel” de criptomoedas, é proibido pelo Código Civil.
“A redação do artigo 565 proíbe o aluguel de bens fungíveis [aqueles que podem ser substituídos por outros de mesma espécie, qualidade e quantidade]. No Direito brasileiro, criptoativos são considerados bens fungíveis. Por exemplo, 1 bitcoin pode ser substituído por 1 bitcoin.”
“Já por esse aspecto o negócio da Braiscompany é ilegal, proibido por lei.”
BBC




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