
As revelações da Operação Zona de Influência, deflagrada nesta terça-feira (29) pela Polícia Federal na Paraíba, começam a levantar uma série de questionamentos entre empresários do setor de combustíveis que, nos últimos meses, estiveram entre os principais alvos das operações do Procon de João Pessoa. A ação da PF teve como um dos alvos Júnior Pires, superintendente do órgão, onde foram apreendidos R$ 220 mil em dinheiro. Por determinação da Justiça Eleitoral, Pires também foi afastado cautelarmente das funções pelo prazo de 90 dias.
Diante desse novo cenário, empresários do segmento passaram a questionar se a sequência de fiscalizações e operações promovidas pelo Procon municipal não teria produzido, na prática, um ambiente de pressão capaz de asfixiar financeiramente empresários considerados regulares, levando alguns deles a desistirem do negócio e abrindo espaço para novos grupos assumirem o controle dos estabelecimentos. Não há, até o momento, informação pública de que a investigação da Polícia Federal tenha estabelecido qualquer relação entre as ações do Procon e a eventual atuação do crime organizado no setor de combustíveis. A suspeita é levantada pelos próprios empresários e, portanto, depende de comprovação.
As dúvidas também alcançam a CPI instalada na Câmara Municipal de João Pessoa para investigar o setor. Empresários questionam se a comissão estaria cumprindo exclusivamente uma finalidade de fiscalização ou se, eventualmente, poderia produzir efeitos semelhantes aos que eles atribuem às operações do Procon: pressionar empresários tradicionais e facilitar a entrada de novos grupos no mercado. A preocupação ganhou dimensão ainda maior diante das investigações realizadas em São Paulo, onde operações como a Carbono Oculto identificaram infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis, inclusive com utilização de empresas e postos para lavagem de dinheiro.
O ponto que amplia a dúvida é justamente o conteúdo da Operação Zona de Influência. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, a Polícia Federal apura se integrantes de uma organização criminosa teriam utilizado o controle territorial sobre comunidades para negociar apoio político e autorizar a entrada de candidatos nesses locais durante atos de campanha. Entre as possíveis contrapartidas investigadas estão pagamentos a uma liderança do grupo, custeio de despesas de um centro comunitário e tratativas envolvendo cargos e empregos na administração pública, além de outros benefícios. A apuração envolve, em tese, crimes eleitorais, organização criminosa, lavagem de dinheiro, domínio social estruturado e favorecimento ao domínio social estruturado.
E é justamente a coincidência entre a investigação sobre influência territorial, possíveis contrapartidas políticas e o histórico recente de operações envolvendo o mercado de combustíveis que coloca uma pergunta no ar: até que ponto as ações de fiscalização e as movimentações políticas em torno do setor estão desconectadas da disputa pelo controle de um mercado que, em outras partes do país, já foi identificado pelas autoridades como alvo de organizações criminosas? A resposta, por enquanto, cabe às investigações. O que existe são suspeitas, questionamentos de empresários e fatos novos que agora passam a ser observados sob uma perspectiva diferente.


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