
No fim de novembro, cerca de um mês depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, recorreu a uma expressão muito utilizada pelo partido a partir de 2003, quando Lula assumiu o Palácio do Planalto pela primeira vez.
Gleisi afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Economia, Paulo Guedes, deixariam uma “herança maldita” para o governo que assumirá em 1º de janeiro de 2023. A expressão, difundida por Lula e pelo PT para criticar os dois mandatos do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), antigo adversário do petismo, logo foi incorporada por parte da militância e encontrou eco em artigos de opinião publicados na imprensa.
Um olhar mais cuidadoso sobre uma série de dados econômicos, no entanto, mostra que Bolsonaro legará ao sucessor uma situação mais confortável do que pode fazer crer o palavrório dos palanques e das redes sociais. A última “herança maldita” foi deixada mesmo por Dilma Rousseff, apeada do cargo, em 2016, por ter cometido uma gigantesca fraude fiscal, popularmente conhecida pelo eufemismo de “pedaladas”, a fim de maquiar os números do governo.
Para se ter uma ideia, em maio de 2016, quando Dilma foi afastada da Presidência, o desemprego no Brasil era de dois dígitos (11,2%).
Em entrevista, o economista Samuel Pessôa, pesquisador do Ibre/FGV, sintetizou o que foram os resultados da economia sob comando de Guedes e Bolsonaro: “Não tenho a menor simpatia pelo governo Bolsonaro nem por ele como figura humana. Mas nós temos que ter o mínimo de capacidade de análise. A herança não é maldita porque a situação fiscal hoje é melhor do que há quatro anos. Não é perfeita e não está resolvida. Há um buraco fiscal, mas há quatro anos esse buraco era maior”.
A PEC da Transição, tal como quer Lula e o PT, é que pode deixar um legado cruel para o país.
Metrópoles






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